Os dois desastres de MG

As opiniões neste artigo são pessoais, e não refletem as opiniões da empresa/instituição onde trabalho.

Na noite de 23/02, chuva intensa ocorreu em Juiz de Fora e Ubá, com ocorrências de enxurradas e deslizamentos de terra nas duas cidades, deixando mais de 30 mortos. Os alertas e avisos emitidos por órgãos nacionais e regionais após o evento, assim como as características desses alertas, evidenciam uma completa falha do sistema de previsão e monitoramento de desastres naturais no Brasil. Este artigo faz uma linha do tempo de alertas e avisos de órgãos nacionais e regionais, com foco em Juiz de Fora. Esta linha do tempo do G1 mostra alguns dos acontecimentos mencionados neste artigo.

A chuva em Juiz de Fora ocorreu em dois períodos, com chuva intensa entre 19h e 21h, e depois entre 22h e meia-noite. Os deslizamentos de terra começaram antes de meia noite. Às 02h da madrugada, a cidade já decretava calamidade pública.

Ainda antes da chuva intensa, havia indicativos pelos órgãos nacionais e regionais da ocorrência de chuva intensa e dos potenciais impactos. Os avisos, contudo, eram generalistas, ou seja, não apontavam especificamente para a região de Juiz de Fora. Como era um evento com alto potencial mas de difícil detalhamento, apenas o monitoramento diria em que local ocorreria uma chuva extrema.

Após a primeira hora de chuva intensa, em que houve acumulados de 60 mm em Juiz de Fora, a Defesa Civil Estadual de MG enviou alerta via SMS em torno de 22h indicando a possibilidade de enxurradas e deslizamentos. Este foi o único alerta que deu uma certa antecedência ao evento. Contudo, como foi enviado por SMS, não teve um alcance e a gravidade ideais. 

Reação depois das chuvas intensas

Depois que aconteceu a segunda parte da chuva e a cidade virou um caos, os centros começaram a agir. O Cemaden, que antes tinha um risco apenas “moderado” nos mapas hidrológicos e geológicos, fez uma atualização às 03h21 (após o decreto de calamidade), indicando risco geológico “alto”. 

Mapas de risco hidrológico e geológico do Cemaden, emitidos na madrugada de 24/02, após as chuvas.

A próxima onda de reações ocorreu apenas na manhã do dia 24, quando a cidade já contava mais de 10 mortos. 

A Defesa Civil Estadual emitiu dois alertas Cell Broadcast para Juiz de Fora e Ubá (onde teve enxurrada na noite anterior), indicando o alto potencial de deslizamentos de terra. Este alerta foi bastante atrasado, sendo enviado mais de 6h depois dos deslizamentos. 

Em torno de 9h da manhã, o INMET emitiu um aviso de “grande perigo” para uma área que se estendia do litoral de São Paulo até o litoral de Espírito Santo, cobrindo todo o RJ e o sul de MG, inclusive Juiz de Fora e Ubá. Embora este aviso tenha sido em função das chuvas intensas esperadas nos dias 26 e 27 na região, o aviso foi evidentemente mais uma resposta atrasada ao ocorrido em Juiz de Fora. 

Mapa do aviso de “grande perigo” emitido pelo INMET na manhã do dia 24, após as chuvas.

A pior resposta ainda ocorreu após 10h da manhã, quando a Defesa Civil de MG enviou uma série de alertas Cell Broadcast. Os alertas compreendiam áreas enormes, com vários municípios. Na grande maioria desses pontos, não havia risco iminente, portanto o número de falsos alarmes foi enorme. A mensagem dos alertas indicavam potencial de deslizamentos de terra. Os alertas de Cell Broadcast são forçados a aparecer nos celulares da população, sem necessidade de cadastro. Esses alertas só devem ser enviados em situações críticas, antecedendo a ocorrência de um evento para o qual a população tem que reagir imediatamente. O envio de Cell Broadcast para uma área muito grande neste caso indica uma completa falta de critérios. O envio provavelmente se deveu a uma exigência de autoridades sem conhecimento técnico sobre a ferramenta ou sobre desastres naturais. Infelizmente, a política e a reatividade após eventos extremos é o que comanda o sistema falho que existe no Brasil.

Imagem da plataforma IDAP indicando os alertas vigentes em MG na manhã de 24/02. Os polígonos com riscos amarelos foram na forma de Cell Broadcast.

Além disso, a Defesa Civil de Belo Horizonte emitiu, na tarde do dia 24, um alerta Cell Broadcast para a cidade. Por questões políticas, a Defesa Civil de MG não pode emitir alertas para Belo Horizonte, ficando isso a critério da Defesa Civil municipal. O alerta enviado em Belo Horizonte tinha a mensagem “Defesa Civil:RISCO GEOLOGICO FORTE EM BELO HORIZONTE até 2 de marco. Atencao a rachaduras, queda de muro, deslizamento e desabamento. Fique em local seguro!”. Um alerta deste tipo não pode ser enviado por uma semana inteira, isto é um mau uso da ferramenta, e indica o desespero em responder ao desastre que tinha ocorrido, sem avaliar critérios técnicos.

Alerta Cell Broadcast para Belo Horizonte no dia 24/02.

Conclusões

Os múltiplos avisos e alertas enviados por diversos órgãos, sem nenhuma conversa entre si e com uma metodologia de reação a eventos que já ocorreram evidenciam o total despreparo e amadorismo do sistema de monitoramento e alerta de desastres brasileiro. É fundamental que o Brasil tenha uma entidade a nível nacional com a autoridade, influência política e capacidade técnica para coordenar as ações dos múltiplos agentes e definir metodologias baseadas em critérios técnicos.